“Em 1947, já na iminência de ser preso, passei à clandestinidade juntamente com a Laura e a nossa filha Maria Armanda, que tinha então pouco mais de dois anos. (…) Já depois de instalados, viemos a saber que o nosso vizinho do lado era agente da PSP, o que significava a exigência de mais atenção (…) Na vida clandestina, cheia de carências e restrições materiais, tínhamos que manter as aparências duma vida normal própria de uma família aparentando poucas dificuldades. Era frequente, nas festas tradicionais, como a Páscoa, por exemplo, fazer-se em casa um bonito bolo para oferecer aos vizinhos, enquanto nós comíamos simples pão seco. Nesse período a situação era ainda mais dificultada pela existência do racionamento de muitos géneros alimentícios. Não tínhamos cartão de racionamento dado que na situação de clandestinidade isso era impossível por inconveniente.”
Jaime Serra, Eles têm o direito de saber… O que custou a Liberdade
Há muitos anos, muita gente vivia na clandestinidade: estava exilada no estrangeiro ou presa. Essa gente estava a lutar por viver num país onde pudesse haver liberdade de expressão, direito de associação, igualdade entre sexos, entre outros importantes valores.
Faz hoje 33 anos que essa gente ganhou uma importante batalha, talvez a mais importante. Mas a guerra não está ganha! É preciso seguir a mensagem que está no título do livro de Jaime Serra: Eles têm o direito de saber… o que custou a liberdade.
É essencial contar às gerações vindouras o que era a vida dos nossos avós e pais. Uma vez que a escola não desempenha esse papel, teremos que ser nós a colmatar esta lacuna. Desta forma, estaremos a contribuir para que os erros históricos não se repitam. Se hoje se vive mal, é por incompetência dos políticos que nós elegemos. Mas esses políticos são criticados, fiscalizados e avaliados. Não há censura nos meios de comunicação, embora haja sempre tentativas de os tentar calar… Os cidadãos podem-se organizar em movimentos, associações, partidos, etc. As mulheres podem votar, obter o passaporte sem autorização do marido. As enfermeiras e funcionárias de serviços públicos podem-se casar.
Hoje vivemos mal, mas temos que constatar o facto que estamos francamente melhor. Definitivamente, não precisamos de outro Salazar!


